Por que escrever “certo”?

Surgiu pela milésima vez o assunto “Por que escrever certo? A língua não evolui?” num fórum e a minha resposta ficou absurdamente longa. Resolvi escrever aqui e deixar lá so o link. E aqui ainda posso colocar uns subtítulos para separar melhor as idéias. Pelo que conheço dos meus poucos leitores regulares, eles já sabem de tudo isso (tem gente até mais viciada em usar o idioma corretamente do que eu), então não é pra eles que escrevo.

Durabilidade e alcance da informação

Hoje historiadores se valem muito de livros e manuscritos, mas talvez no futuro a internet seja uma fonte de pesquisa histórica. Não seria legal se o que você escreveu pudesse ser lido daqui a 200 anos por um pesquisador tibetano interessado em saber as opiniões dos internautas do Brasil em 2010? Ele terá bem menos trabalho se você escrever direito.

Para nós, “iço” é entendível, mas coitado do estrangeiro (no presente ou no futuro), que vai ir no dicionário, pensando que é uma palavra desconhecida e não vai encontrar. Ele provavelmente deduzirá o significado algum tempo depois, mas terá mais trabalho tudo porque a pessoa que escreveu não quis fazer o mínimo esforço de pôr em prática o que todo mundo aprende no primeiro ano da escola: escreve-se “isso”, não “iço”. A pronúncia é a mesma, mas a padronização traz benefícios.

Facilidade e rapidez de leitura

Até para um brasileiro, encontrar as palavras escritas sempre da forma correta facilita a leitura, pois o cérebro reconhece mais rápido as palavras. Se eu encontro “esta” no lugar de “está” (ou vice-versa), muitas vezes eu tenho que reler a frase pra ver se fui eu que li errado (posso ter pulado uma palavra ou uma pontuação) ou se o texto está errado mesmo.

Não-humanos

É sempre engraçado e irritante quando vejo um desses analfabetos colocar num tradutor automático uma frase como: “Ela esta feliz” (me faltou uma frase mais realista), e pega a tradução “She this happy” como se fosse um inglês perfeito e sai por aí postando em legenda de foto no Orkut, postando em ingrêis nos fóruns gringos, etc. Se ao menos se desse o trabalho de acentuar corretamente o “está”, teria muito mais chance da tradução sair correta (os tradutores automáticos já são ruins, imagina se a gente fica atrapalhando com grafias fora do padrão).

Outros casos de não-humanos seriam leitores de tela para pessoas com algum tipo de deficiência visual (não quero nem imaginar como um leitor leria algo em miguxês… droga, já imaginei) e, é claro alienígenas.

Concessões e gentilezas

A primeira vez que eu vi a abreviação “vo6” eu não entendi porra nenhuma. É que aqui na minha região, a gente fala “vocês”, não “voceis”. Não seria legal se combinássemos de escrever todos do mesmo jeito? Bom, nesse caso já está combinado de todos escreverem “vocês”.

Por acaso pode parecer que eu levo uma certa vantagem porque a forma escrita “vocês” é mais parecida com o jeito que eu falo, mas em outros casos não é. Eu por exemplo, se fosse escrever como eu falo, escreveria “trabisseiro”, mas eu faço uma concessão (se quiser, pode considerar como uma “gentileza”) ao resto dos falantes do português e escrevo como foi padronizado: “travesseiro”, para facilitar o entendimento de todos.

União

Nossa língua, apesar de estar entre as mais faladas do mundo, não é tão poderosa. Se quisermos nos comunicar com o resto do mundo, precisamos aprender inglês, espanhol, francês, etc. Se ainda tivéssemos que aprender (ou ensinar aos estrangeiros) português de Portugal, português gaúcho, português nordestino, português angolano, seria pior ainda. A língua ensinada nas escolas, que é um pouco diferente do que falamos no dia-a-dia, é um jeito de nos manter mais unidos.

Línguas como o alemão e o italiano têm vários dialetos, mesmo que os países sejam menores que o Brasil. Mas os viajantes estrangeiros podem ficar sossegados que existe o alemão padrão e o italiano padrão que podem ser entendidos por toda a extensão de seu país correspondente (assim ouvi falar. Não sei alemão nem italiano).

Elitismo

Após defender o uso “correto” (coloco entre aspas porque na verdade acho que a melhor palavra seria padronizado) da língua, pode parecer que sou do time de pessoas que acham que simplificar a ortografia tiraria a “beleza”, a “riqueza”, o “valor”, e/ou a “história” da língua e por isso deveríamos fazer como o francês e o inglês que mantêm suas complicadas ortografias. Não concordo com eles. Na verdade, o que eu acho que eles querem dizer é que uma ortografia complexa serve pra distinguir os eruditos da plebe. Mas isso não é problema, porque a natureza se encarregará de criar idiotas suficientes para escrever errado em qualquer ortografia. Defendo, sim, que deve haver evolução, mas tem que ser algo razoavelmente organizado.

Evolução

Bom, acima expliquei as vantagens da padronização. Sei que há várias evoluções e simplificações possíveis na nossa ortografia. A minha reclamação é que as grafias miguxas, internéticas e assemelhadas não são uma evolução coerente da língua em direção a uma grafia simplificada. São uma bagunça. Se fosse uma coisa coerente, até eu apoiaria. Eu também gosto de testar novas grafias, como escrever “mause” (fica meio feio, né?) e “extender” (de onde tiraram a idéia de padronizar o “estender” com S e “extensão” com X?), mas sempre em doses leves, não em todas as palavras do texto.

Mas é muito difícil conseguir consenso sobre uma nova ortografia e aplicá-la globalmente a um mundo de livros, revistas, sites e programas de computador (corretores, tradutores e qualquer coisa que venham a inventar). Mesmo assim, fizeram uma reforma ortográfica no Brasil ano passado…

O artigo abaixo, aparentemente publicado antes da reforma de 2009, explica o tortuoso (mas interessante) caminho percorrido pela nossa língua até chegar ao estado atual. Na minha opinião, houve mudanças demais neste século passado. A mudança inicial salvou o português de ser uma bagunça como o inglês no quesito ortografia, mas as outras alteraram minúcias que serviram mais pra confundir a cabeça do povo, que mal consegue manter uma ortografia na cabeça.

http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11184

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3 pensamentos sobre “Por que escrever “certo”?

  1. Sou do tempo em que todos falávamos ‘cousas’ até que alguns pequenos reacionários começaram a falar ‘coisas’

    Lingua em constante evolução (ou apenas transformação).

  2. Estou lendo um livro sobre a independência do Brasil. Ele conta que a amante do imperador D. Pedro I escrevia muito mal. Era uma senhora muito ignorante mesmo. Então, aí tens um bom motivo para escrever bem: para que daqui a duzentos anos não te chamem de ignorante.

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