Perigosa manifestação do populismo

Encontrei outro artigo digno de ser comentado sobre reforma ortográfica. A parte boa: colocaram duas opiniões antagônicas lado-a-lado. A parte ruim: eu ainda acho que a opinião contrarária à simplificação é agressiva, rebuscada e com falta de conteúdo. Mas talvez seja apenas um tipo de dissonância cognitiva minha, então vou tentar resumir e analisar o artigo da esquerda na imagem abaixo (com o título de “Discriminação disfarçada” e com a frase em destaque “a deterioração da norma culta é perigosa manifestação de populismo na linguagem escrita”).

1048116_802949069743473_7028504601196506699_o

Resumo e comentários meus:

  • O artigo diz: o que realmente importa é a a estrutura do ensino.
    • Correto.
    • Isso não invalida os benefícios de uma simplificação da ortografia.
    • Por que não ambos? Ensino básico eficiente e ortografia eficiente juntos!
  • O artigo diz: simplificação ortográfica é solução imediatista e populista, as soluções reais são mais complexas.
    • A posição contrária à simplificação será compensada com ações concretas para a melhoria da educação?
    • Sabe-se quais são as soluções mais complexas para que devem ser usadas no lugar da solução imediatista?
    • Suponha que uma grande melhoria na base da educação seja um enorme banquete, com algumas regras de etiqueta meio supérfluas. A simplificação da ortografia é um abacaxi descascado a facão. Já se percebeu que está difícil de organizar o banquete. Você escreveria um artigo em oposição ao abacaxi por ser a deterioração da norma culta?
    • E se o banquete não puder ficar pronto logo, que tal um abacaxizinho?
  • O artigo diz: a simplificação parte do princípio que as pessoas não têm condições de se educar e alcançar novo patamar cultural.
    • Bobagem.
    • Todos se beneficiam de regras mais simples.
    • Bem… Os únicos que não se beneficiam são aqueles que já decoraram um monte de coisas e não querem perder seu elevado patamar cultural.
    • Decorar grafias ilógicas não deveria ser motivo de orgulho pra ninguém. Não falo nem de entender regras lógicas, porque isso é bom. Falo das partes ilógicas mesmo.
    • Do mesmo jeito que não é motivo de orgulho saber regras de etiqueta de mil-oitocentos-e-só-tomo-banho-uma-vez-na-vida.
  • O artigo diz: objetivos nobres, mas que, na prática, se revelam nocivos.
    • Nocivo? Sério?
    • Dá para entender que reforma ortográfica não faz milagre, mas nocivo por quê?
    • Ah sim, acham que é discriminação. Já disse logo acima que discordo e expliquei por quê (se não quiser voltar ou se tiver déficit de atenção: todos se beneficiam com regras simples).
  • O artigo diz: deterioração, perigosa, nocivos, populismo…
    • Ah, pára.
    • Nociva foi a queda do acento do “pára” na mais recente reforma ortográfica!
    • Nocivo é achar que adicionando complexidades artificiais, teremos um patamar cultural mais alto.

Para finalizar e novamente deixar claro: não sou necessariamente a favor de mais uma reforma. Até porque existem infinitas combinações de propostas, e algumas podem ser muito boas e outras muito ruins, então taxar todas com o mesmo rótulo seria um erro primário. Uma poderia virar a escrita de ponta-cabeça (literal ou figurativamente) e outra pode apenas querer consertar as bobagens que fizeram com o “pára”, alguns casos do hífen, e (a minha reclamação favorita), a ambigüidade gerada pela remoção do trema.

Pergunte para um observador isento (um alienígena, por exemplo) o que ele acha de escrever igual as sílabas /ke/ e /kwe/. A resposta seria: “Por que alguém faria essa idiotice? Vão escrever «laranja» e «goiaba» iguais também?”

Anúncios

Folia ortográfica

Noticiaram recentemente uma proposta de proposta de nova reforma ortográfica. Em seguida vieram as reações apaixonadas à ortografia atual (seja a pré- ou pós-2009, mas provavelmente pré-), para que não mude, como se a ortografia fosse algo divino, imutável, vinda direto de sábios latinos e gregos.

O que é lamentável nessas discussões é quando os argumentos técnicos ficam de fora para dar lugar a reações do tipo:

  • Heresia! Como ousam modificar a sagrada ortografia vinda direto do latim?
    • Na verdade a ortografia do português já mudou tantas vezes nos últimos 150 anos (aproximadamente umas 4 vezes, dependendo se contar Portugal e Brasil juntos ou separados) que atualmente não dá para entender por que algumas palavras seguem a etimologia e outras não. Então eu poderia até argumentar que nesse ritmo estamos com o pior dos dois mundos: não é possível absorver totalmente a etimologia das palavras pela escrita, nem é possível saber a escrita correta pela pronúncia.
    • Se uma regra não resiste a uma contestação, talvez a regra não devesse existir mesmo. Já evoluímos o suficiente para raciocinarmos e evitarmos dogmas, certo?
  • A proposta veio de um zé-ninguém que não tem autoridade nem títulos suficientes.
    • Ad hominem. Muitas vezes as pessoas usam a expressão ad hominem quando alguém recorre a xingamentos, mas é perfeitamente possível ofender alguém e manter um argumento coerente. Este caso aqui é a forma mais verdadeira de ad hominem: tentar desqualificar o argumento desqualificando a pessoa. Mesmo se usar boa educação e desqualificar a pessoa é um ad hominem, mesmo se usar grosserias e atacar a argumentação, não é ad hominem.
  • Ridicularização em geral
    • Até artigos de pessoas que parecem muito competentes abusam do ridículo como tentativa de ganhar a simpatia do leitor. É claro que a primeira reação ao ver um testo eskrito de um jeito eskizito é de estranhamento e repulsa, então se aproveitam disso para escrever um artigo bem humorado, simpático para quem já tem a mesma opinião, e ao mesmo tempo vazio de argumentos reais.
  • É impossível ter uma ortografia 100% fonética, então é melhor nem tentar
    • Fora o óbvio precipício que existe entre “impossível ser perfeito” e “não ouse tentar”, o outro problema é a alteração do argumento “inimigo” para ficar mais fácil de refutá-lo. Isso é conhecido como espantalho ou strawman. O argumento da reforma ortográfica não é atingir uma ortografia 100% fonética, então atacar esse argumento é burrice ou desonestidade intelectual.
    • É ainda mais impossível ter uma ortografia 100% etimológica. Escreveríamos c com som de i em nocte. Ou estaríamos escrevendo no próprio latim, distanciando ainda mais os “letrados” do “povão” que não pode aprender latim.
    • Agora, se você acha que é bom distanciar os letrados do povão através de dificuldades impostas artificialmente, eu desprezo você (cê é feio, bobo e chato!)
  • É a vitória dos burros, agora eles vão saber mais do que nós, os inteligentes!
    • Se você fosse inteligente, não teria problemas em aprender a nova ortografia, criatura.
    • Os burros sempre nos surpreendem, fiquem tranqüilos, vocês ainda poderão se sentir inteligentes.

No fim, praticamente o único argumento que sobra para não modificar a ortografia é a etimologia. O meu problema é, como eu disse de passagem acima, podemos não atingir nenhuma das metas ao tentar atingir todas:

  • Não é tão fácil ler textos de 1800 ou 1700, por causa das mudanças que já ocorreram. Monumentos e documentos são vistos por aí com grafias que hoje seriam consideradas erradíssimas.
  • Não é tão fácil saber como se escreve uma palavra, pois a ortografia está distante da pronúncia.
  • Quem quiser saber a etimologia vai ter que estudá-la de qualquer forma. Os penduricalhos mantidos nas palavras (ex.: Hs mudos) são pouco relevantes para essa tarefa. Então que simplifiquem a ortografia e com o tempo economizado adicionem horas-aula de etimologia, ué (ou melhor ainda, de interpretação de texto e redação).
  • Mesmo sabendo etimologia, a grafia baseada nela acaba sendo inconsistente. Algumas palavras foram reformadas e outras não. Alguns Hs caíram e outros não. Em português se escreve “licença”, em inglês é “license” (embora exista também a variante “licence”). Em português é “estende”, em inglês é “extends”. Mas em português se escreve “extensão”. Quando a falta de lógica se torna o correto, temos um verdadeiro problema! Entre inglês e francês (duas línguas que prezam mais a etimologia do que a lógica) existem vários casos de incoerências, por exemplo, rhythmrythme. Enquanto isso, felizmente, o português preza a lógica e usa ritmo mesmo. Alguém morre por escrevermos da forma mais simples?
  • Etimologia de quando? A mais antiga possível? Do “período clássico”? Não! Isso seria muito diferente do que falamos hoje… Quem sabe um meio-termo? Mas de quando? Se voltarmos apenas uns 300 (± 100) anos já chegamos numa época em que o J era uma invenção supermoderna e não havia ainda diferenciação entre U e V! E o que dizer o H, que é mudo há mais tempo que isso, por que continua?
  • Línguas fazem reformas ortográficas e as catástrofes anunciadas não parecem ser tão grandes assim. Qual o problema de ora, uomo em italiano fora a subjetividade do gosto pessoal de cada um? Além disso, em português temos horaora com a mesma etimologia e uma diferença artificial posta por cima (hora para o relógio enquanto ora é mais usada em expressões como “ora isso, ora aquilo” ou “por ora”…)
  • E finalmente, vamos admitir, as letras foram, sim, criadas para representar os sons. Se não fosse por isso, estaríamos escrevendo com desenhos. Alguma falta de correspondência entre os sons da fala e as letras da escrita é inevitável ao longo da história, mas não é o objetivo a ser perseguido. Não vamos inverter as prioridades, por favor.

Quer dizer que eu sou a favor de mais uma reforma ortográfica? Bem… Mais ou menos. Ainda acho que existem bons motivos para manter a ortografia como está (ou como estava antes de 2009):

  • A etimologia. Sim eu me importo com ela, apesar dos problemas. Mas ela deve ser um critério de desempate, não o critério principal. Como existem pessoas que falam “mezmo”, “meizmo” e “meijmo”, é justo manter a escrita como “mesmo”: cada um lê com seu sotaque (e às vezes nem percebemos que esse s em fim de sílaba pode ter tantos sons diferentes). Não é o caso de “ge” e “je”, pois nunca ouvi falar de alguma região onde a população consistentemente pronuncie essas sílabas de maneira diferente.
  • A estabilidade. Não é para a ortografia ser brinquedo de “imortais” da ABL (que morrem bem seguido, aliás), pois as outras pessoas precisam usá-la como ferramenta para suas tarefas do cotidiano. E mesmo assim ela tem mudado a cada 30 ou 40 anos no último século… Reimprimindo livros, provendo treinamentos, e esquecendo como era antes.
  • Apesar de tudo, nossa ortografia não é tão ruim como a do inglês ou francês.

Links diversos:

• http://www.inf.ufrgs.br/~vbuaraujo/blog/?entry=20140820-orthographica

• http://www.inf.ufrgs.br/~vbuaraujo/blog/?entry=20140823-orthographica-2

• Apontamentos sobre a ortografia do português, passando por fases simples e fases pseudo-etimológicas e pretensiosas: http://esjmlima.prof2000.pt/hist_evol_lingua/R_GRU-J.HTML

• http://www.acordarmelhor.com.br

• Etimologia de quando? http://simplificandoaortografia.com.br/index.php/o-mito-e-o-dogma-da-etimologia/

• http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2014/09/04/nova-folia-ortografica/

• Simpósio internacional linguístico-ortográfico da língua portuguesa — http://www.albdf.com/

• Opinião: é preciso reformar melhorar e simplificar a reforma ortográfica — http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/09/1515816-opiniao-e-preciso-reformar-melhorar-e-simplificar-a-reforma-ortografica.shtml

CSS

Depois de um tempo sempre caindo em sites com explicações ruins sobre CSS e sempre esquecendo tudo minutos depois (explicações ruins não se fixam na minha memória), encontrei um ou dois sites quases bons (perdi os links, mas um deles deve ser este: http://css-tricks.com/almanac/
properties/d/display/
) e decidi colecionar minhas próprias explicações, para não precisar mais me contentar com explicações mais ou menos dali em diante.

O resumo abaixo não passou por um controle de qualidade completo™ (isto é, algumas coisas eu testei e outras não), mas deve ser razoavelmente útil, nem que seja para mim mesmo. Foquei este tira-dúvidas em 3 propriedades: display, position, e white-space.

display:

block

  1. Sempre começa numa nova linha.
  2. Dá pra manipular height, line-height e as margens top e bottom.
  3. A largura (width) default é 100% da largura da página, mas dá pra especificar outro valor.

Exemplos em que é o default: <div>, <p>, <h1>, <form>, <ul>, <ol>

inline

  1. Começa na mesma linha.
  2. Não dá pra manipular height, line-height nem as margens top e bottom, essas propriedades serão ignoradas (ver inline-block abaixo para a solução).
  3. A largura (width) é o tamanho do texto ou imagem contida no elemento e não é possível mudar.

Exemplos em que é o default: <span>, <a>, <label>, <strong>, <em>, <b>, <i>.

inline-block

  1. Começam na mesma linha
  2. É possível manipular height, width, etc.

Exemplos em que é o default: <button>, <select>. Há algumas divergências quanto a <img>, <input>, <textarea>, se eles devem ser inline-block ou apenas inline por default. Ver: http://stackoverflow.com/questions/21614938/html-element-which-defaults-to-displayinline-block

position:

static

É o default.

  1. A posição depende do fluxo normal dos elementos da página: seguindo a ordem de leitura de texto, com elementos block começando novas linhas, etc.
  2. Posicionamento com CSS com top, left, right, e bottom será ignorado.
  3. A única situação onde seria necessário usar position: static seria para remover outro posicionamento que foi adicionado em outro lugar. Isso ocorre raramente.

absolute

  1. Removido do fluxo normal da página. Não afeta a posição dos outros elementos e não é afetado por eles.
  2. Posicionado nas coordenadas especificadas (por exemplo, com top e left).
  3. As coordenadas usadas no posicionamento são a posição absoluta dentro do elemento contêiner.
  4. O elemento contêiner pode ser a página como um todo ou o primeiro elemento circundante que especifique  position: relative.

relative

  1. Aceita ser posicionado com top, left, etc.
  2. As coordenadas usadas no posicionamento são relativas à posição onde o elemento estaria no fluxo normal da página. Ou seja, é possível fazer coisas como: posição_normal + 10, posição_normal – 5, etc. apenas especificando relative e 10px, -5px, etc.
  3. Usar position: relative e não setar uma posição não vai alterar a localização do elemento, mas vai permitir duas coisas:
    1. usar z-index
    2. servir como elemento contêiner de elementos com position: absolute.

fixed

  1. Semelhante ao absolute.
  2. Não se move quando é usada a barra de rolagem.

white-space:

normal

  1. Seqüências de espaços viram um espaço só.
  2. Quebras de linha só quando necessário (quando o texto atinge a margem), mesmo que o fonte tenha suas próprias quebras.
  3. Quebras de linha nos <br>
  4. É o default.

nowrap

  1. Seqüências de espaços viram um espaço só.
  2. Não adiciona quebras de linha mesmo que necessário (gera linhas mais longas que a tela).
  3. Quebras de linha nos <br>.

pre

  1. Seqüências de espaços são preservadas.
  2. Não adiciona quebras quando necessário.
  3. Quebras de linha onde existirem no fonte.
  4. Quebras de linha nos <br>.
  5. Age como a tag <pre>.

pre-line

  1. Seqüências de espaços viram um espaço só.
  2. Quebras de linha quando necessário.
  3. Quebras de linha onde existirem no fonte
  4. Quebras de linha nos <br>.

pre-wrap

  1. Seqüências de espaços são preservadas.
  2. Quebras de linha quando necessário.
  3. Quebras de linha onde existirem no fonte.
  4. Quebras de linha nos <br>.

(aliás, o CSS fez aniversário de 20 anos recentemente)