Folia ortográfica

Noticiaram recentemente uma proposta de proposta de nova reforma ortográfica. Em seguida vieram as reações apaixonadas à ortografia atual (seja a pré- ou pós-2009, mas provavelmente pré-), para que não mude, como se a ortografia fosse algo divino, imutável, vinda direto de sábios latinos e gregos.

O que é lamentável nessas discussões é quando os argumentos técnicos ficam de fora para dar lugar a reações do tipo:

  • Heresia! Como ousam modificar a sagrada ortografia vinda direto do latim?
    • Na verdade a ortografia do português já mudou tantas vezes nos últimos 150 anos (aproximadamente umas 4 vezes, dependendo se contar Portugal e Brasil juntos ou separados) que atualmente não dá para entender por que algumas palavras seguem a etimologia e outras não. Então eu poderia até argumentar que nesse ritmo estamos com o pior dos dois mundos: não é possível absorver totalmente a etimologia das palavras pela escrita, nem é possível saber a escrita correta pela pronúncia.
    • Se uma regra não resiste a uma contestação, talvez a regra não devesse existir mesmo. Já evoluímos o suficiente para raciocinarmos e evitarmos dogmas, certo?
  • A proposta veio de um zé-ninguém que não tem autoridade nem títulos suficientes.
    • Ad hominem. Muitas vezes as pessoas usam a expressão ad hominem quando alguém recorre a xingamentos, mas é perfeitamente possível ofender alguém e manter um argumento coerente. Este caso aqui é a forma mais verdadeira de ad hominem: tentar desqualificar o argumento desqualificando a pessoa. Mesmo se usar boa educação e desqualificar a pessoa é um ad hominem, mesmo se usar grosserias e atacar a argumentação, não é ad hominem.
  • Ridicularização em geral
    • Até artigos de pessoas que parecem muito competentes abusam do ridículo como tentativa de ganhar a simpatia do leitor. É claro que a primeira reação ao ver um testo eskrito de um jeito eskizito é de estranhamento e repulsa, então se aproveitam disso para escrever um artigo bem humorado, simpático para quem já tem a mesma opinião, e ao mesmo tempo vazio de argumentos reais.
  • É impossível ter uma ortografia 100% fonética, então é melhor nem tentar
    • Fora o óbvio precipício que existe entre “impossível ser perfeito” e “não ouse tentar”, o outro problema é a alteração do argumento “inimigo” para ficar mais fácil de refutá-lo. Isso é conhecido como espantalho ou strawman. O argumento da reforma ortográfica não é atingir uma ortografia 100% fonética, então atacar esse argumento é burrice ou desonestidade intelectual.
    • É ainda mais impossível ter uma ortografia 100% etimológica. Escreveríamos c com som de i em nocte. Ou estaríamos escrevendo no próprio latim, distanciando ainda mais os “letrados” do “povão” que não pode aprender latim.
    • Agora, se você acha que é bom distanciar os letrados do povão através de dificuldades impostas artificialmente, eu desprezo você (cê é feio, bobo e chato!)
  • É a vitória dos burros, agora eles vão saber mais do que nós, os inteligentes!
    • Se você fosse inteligente, não teria problemas em aprender a nova ortografia, criatura.
    • Os burros sempre nos surpreendem, fiquem tranqüilos, vocês ainda poderão se sentir inteligentes.

No fim, praticamente o único argumento que sobra para não modificar a ortografia é a etimologia. O meu problema é, como eu disse de passagem acima, podemos não atingir nenhuma das metas ao tentar atingir todas:

  • Não é tão fácil ler textos de 1800 ou 1700, por causa das mudanças que já ocorreram. Monumentos e documentos são vistos por aí com grafias que hoje seriam consideradas erradíssimas.
  • Não é tão fácil saber como se escreve uma palavra, pois a ortografia está distante da pronúncia.
  • Quem quiser saber a etimologia vai ter que estudá-la de qualquer forma. Os penduricalhos mantidos nas palavras (ex.: Hs mudos) são pouco relevantes para essa tarefa. Então que simplifiquem a ortografia e com o tempo economizado adicionem horas-aula de etimologia, ué (ou melhor ainda, de interpretação de texto e redação).
  • Mesmo sabendo etimologia, a grafia baseada nela acaba sendo inconsistente. Algumas palavras foram reformadas e outras não. Alguns Hs caíram e outros não. Em português se escreve “licença”, em inglês é “license” (embora exista também a variante “licence”). Em português é “estende”, em inglês é “extends”. Mas em português se escreve “extensão”. Quando a falta de lógica se torna o correto, temos um verdadeiro problema! Entre inglês e francês (duas línguas que prezam mais a etimologia do que a lógica) existem vários casos de incoerências, por exemplo, rhythmrythme. Enquanto isso, felizmente, o português preza a lógica e usa ritmo mesmo. Alguém morre por escrevermos da forma mais simples?
  • Etimologia de quando? A mais antiga possível? Do “período clássico”? Não! Isso seria muito diferente do que falamos hoje… Quem sabe um meio-termo? Mas de quando? Se voltarmos apenas uns 300 (± 100) anos já chegamos numa época em que o J era uma invenção supermoderna e não havia ainda diferenciação entre U e V! E o que dizer o H, que é mudo há mais tempo que isso, por que continua?
  • Línguas fazem reformas ortográficas e as catástrofes anunciadas não parecem ser tão grandes assim. Qual o problema de ora, uomo em italiano fora a subjetividade do gosto pessoal de cada um? Além disso, em português temos horaora com a mesma etimologia e uma diferença artificial posta por cima (hora para o relógio enquanto ora é mais usada em expressões como “ora isso, ora aquilo” ou “por ora”…)
  • E finalmente, vamos admitir, as letras foram, sim, criadas para representar os sons. Se não fosse por isso, estaríamos escrevendo com desenhos. Alguma falta de correspondência entre os sons da fala e as letras da escrita é inevitável ao longo da história, mas não é o objetivo a ser perseguido. Não vamos inverter as prioridades, por favor.

Quer dizer que eu sou a favor de mais uma reforma ortográfica? Bem… Mais ou menos. Ainda acho que existem bons motivos para manter a ortografia como está (ou como estava antes de 2009):

  • A etimologia. Sim eu me importo com ela, apesar dos problemas. Mas ela deve ser um critério de desempate, não o critério principal. Como existem pessoas que falam “mezmo”, “meizmo” e “meijmo”, é justo manter a escrita como “mesmo”: cada um lê com seu sotaque (e às vezes nem percebemos que esse s em fim de sílaba pode ter tantos sons diferentes). Não é o caso de “ge” e “je”, pois nunca ouvi falar de alguma região onde a população consistentemente pronuncie essas sílabas de maneira diferente.
  • A estabilidade. Não é para a ortografia ser brinquedo de “imortais” da ABL (que morrem bem seguido, aliás), pois as outras pessoas precisam usá-la como ferramenta para suas tarefas do cotidiano. E mesmo assim ela tem mudado a cada 30 ou 40 anos no último século… Reimprimindo livros, provendo treinamentos, e esquecendo como era antes.
  • Apesar de tudo, nossa ortografia não é tão ruim como a do inglês ou francês.

Links diversos:

• http://www.inf.ufrgs.br/~vbuaraujo/blog/?entry=20140820-orthographica

• http://www.inf.ufrgs.br/~vbuaraujo/blog/?entry=20140823-orthographica-2

• Apontamentos sobre a ortografia do português, passando por fases simples e fases pseudo-etimológicas e pretensiosas: http://esjmlima.prof2000.pt/hist_evol_lingua/R_GRU-J.HTML

• http://www.acordarmelhor.com.br

• Etimologia de quando? http://simplificandoaortografia.com.br/index.php/o-mito-e-o-dogma-da-etimologia/

• http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2014/09/04/nova-folia-ortografica/

• Simpósio internacional linguístico-ortográfico da língua portuguesa — http://www.albdf.com/

• Opinião: é preciso reformar melhorar e simplificar a reforma ortográfica — http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/09/1515816-opiniao-e-preciso-reformar-melhorar-e-simplificar-a-reforma-ortografica.shtml

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s