Simplificação ortográfica para aprender línguas

Ainda lembro quando um professor de inglês (que não era muito bom, em seguida descobri) disse que “não se escrevia” (não deveríamos escrever) a pronúncia das palavras ao lado delas. Duvidei, achei estranho, mas deixei para lá.

Hoje, muito tempo depois, posso afirmar com mais convicção que ele estava errado. Confiar na ortografia do inglês é pedir para aprender pronúncias erradas. Claro que as palavras mais comuns nós aprendemos corretamente, mas sempre fica aquela vontade de aproximar a pronúncia ao que é escrito (principalmente se o estudante aprende mais visualmente). Você pode ouvir “color” com a pronúncia correta, mas ao olhar aquele primeiro “o”, e ao ouvir colegas pronunciando a palavra de maneira aportuguesada, acabamos dizendo “cólor”, quando na verdade uma aproximação muito melhor seria “câlar”.

Esse tipo de coisa eu só fui descobrir depois ao ouvir inglês com pronúncia correta mais freqüentemente e também (aqui vem a surpresa): ao ler postagens em blogs sobre simplificação ortográfica do inglês. Sim, inglês escrito “errado” me fez aprender a pronúncia correta de muitas palavras. Eu leio a pronúncia fonética dos dicionários, mas não para cada palavrinha que encontro, havia muitas que eu pensava já saber ou que poderia deduzir e na verdade não sabia.

Claro que eu fico meio receoso em sugerir inglês escrito de maneiras não convencionais, porque pode causar confusão na cabeça do estudante (e até porque não deve nem existir material de aprendizado nesse formato), mas quem disse que a grafia oficial não causa confusão? Continuo gostando do alfabeto fonético, mas às vezes ele é preciso demais, e dá detalhes irrelevantes para os iniciantes.

Recentemente fiquei experimentando algo parecido com francês. Fico com medo de pegar manias erradas na hora de escrever, mas é muito mais fácil estudar sozinho se eu marcar explicitamente no papel quando “plus” deve ser pronunciado /ply/ e quando deve ser pronunciado /plys/. E também para saber que sans é /sɑ̃/ mas sens é /sɑ̃s/. Quer maneira melhor de fazer isso do que omitindo ou incluindo o S no final? Foi para isso que as letras foram inventadas, ora bolas (liason não mencionada para simplificar o texto).

Apêndice. Você sabia que…

Bomb, comb, tomb, além de terem o B mudo, não rimam?

As palavras debt (dét) e island (áiland) não tinham o B nem o S nem em línguas próximas, nem em formas antigas do inglês? Apesar disso, foram “restaurados” mesmo assim na escrita inglesa por “etimologia”. Etimologia de boteco, diga-se de passagem.

Build, busy, business, minute seriam muito mais fiéis à pronúncia correta se fossem escritos bild, bizzy, bizness, minat (ou minit)? Já ouvi muita gente tentando inserir um som de “iú” nessas palavras (já que esse é o nome da letra U em inglês), mas na verdade esse U está ali só para te enganar. O som é de I mesmo, aqui a lógica não funciona :-(

Money e funny rimam? Portanto money poderia ser escrito munny, mas antigamente alguém achou que ficava muito difícil de ler um monte de tracinhos verticais da seqüência m, u, n, então muitas palavras que deveriam ter “mu” pela lógica, são escritas com “mo”: month, mother, among, monkey. E também: nothing, tongue, come, some, done (estes últimos nem precisavam do E no final, ele só serve para atrapalhar). O fato de que bastaria escrever as letras um pouco mais separadas não deve ter passado pela cabeça dessas pessoas… Casos semelhantes são: color, other, touch, double, couple, mas aqui não sei o que explica o uso de o/ou.

Antigamente o V não existia? A letra U entre vogais era entendido como V. Por isso que, enquanto hat/hate, mad/made, hid/hide seguem uma lógica, have, live, give não seguem e têm um E no final desnecessário. Aliás, sempre que vejo live escrito fico em dúvida se é “liv” ou “live” (laiv), porque os dois existem e são escritos da mesma forma. Também existem várias palavras com ov que hoje poderiam ser escritas com uv: como love e above.

E tudo isso sem nem falar do -ough… Gostaria que o drive-trhu expandisse o uso do thru para todas as situações, porque o par through (lido como thru) e though (lido como tho) ninguém merece.

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