Crase – de segunda a sexta

Como um dos posts mais acessados do blog é Crase – A direção, de 2007, resolvi fazer uma continuação com o erro que eu mais vejo por aí.

Escrevem “de segunda a sexta” usando «à» com tanta freqüência que daria para até se confundir e achar que é com «à» mesmo… Se não fosse a lógica :D

Como eu já disse antes, a regra básica da crase é: «à» é o feminino de «ao». Você poderia, se quisesse, dizer:

da segunda ao sábado”

e portanto daí poderia dizer, por analogia:

da segunda à sexta”.

Mas na prática, não usamos da nem ao, usamos dea. Então deve ficar:

de segunda a sábado”

de segunda a sexta”.

Sem crase, portanto.

Note que as horas são um assunto completamente diferente.

das 08:00 ao meio-dia”

das 08:00 às 22:00”

das 08:00 à meia-noite”

Pode parecer complexo, mas é tudo lógico: se puder existir «ao», pode existir «à».

Caetano Veloso e a crase

Já twitei sobre isso, mas é tão curioso que lá vai de novo: Caetano Veloso dá bronca em sua equipe por ‘erro idiota’ de crase. Legal, haha.

Só faltou dizer “Você é burro, cara”.

É interessante que o erro de crase muda o sentido da frase:

“ao Bituca” = Correto, Bituca é o Milton Nascimento, usa artigo masculino.

“a Bituca” = Correto também, não é necessário usar artigo na frente de nomes próprios; serve tanto para o masculino quanto para o feminino.

“à Bituca” = Quem é essa mulher, Bituca? Para quem não conhece o apelido, indica claramente o feminino. Para quem conhece o apelido do Milton, o erro chama mais atenção do que uma espinha vermelha bem no meio do nariz.

Como eu já disse, se você sabe usar “ao”, você sabe usar “à” (*); se você sabe usar “a la” em espanhol, sabe usar “à” em português (*). Não é grego nem chinês :-)

(*) Na maioria dos casos…

Crase – A direção

Por que será que é tão difícil ensinar nem que seja a regra básica da crase? É complicado ver numa universidade (e nas placas nas ruas, e nos panfletos, e nos sites da internet, e por aí vai…) erros como uma mensagem afixada na parede terminando com “À direção”. Se o objetivo fosse escrever algo destinado à direção, destinado ao diretor, aí sim seria com crase. Mas no caso do cartaz na parede que eu vi deveria ser sem, porque a direção é a autora da mensagem, não a destinatária!

Se for ver, existe uma regra supersimples pra entender a crase: À é o feminino de AO, e ÀS é o feminino de AOS (e “ás” é o nome daquela carta de baralho :-D ). Só isso. Só com isso dá pra deduzir um monte de casos… é só pensar. Volta e meia eu vejo uma placa que diz “Use à Marquês do Pombal [nome de rua]. Poxa, se você não diz “use ao”, não escreva “use à”, né?!

(Editando: a placa era pior do que eu lembrava: ela dizia “Use á Marquês do Pombal”. Conseguiram colocar o acento virado. Vê se pode… “Á” não existe!)

Aliás, antes de terminar este post, me lembrei de um caso relacionado. Eu sempre me admiro com as grandes faixas dos supermercados Zaffari e Bourbon em Porto Alegre escritas impecavelmente (algo mais ou menos assim): “De segunda a sábado, das 8h às 23h”. Inclusive com a abreviação certa de “horas” (apenas o h). No site também está assim. Meus parabéns a eles. Em compensação, na única vez que fui no Carrefour, encontrei cartazes dignos de risadas, mal e mal dava pra entender o que eles queriam dizer, de tão ruim que estava o português… Acho que estavam querendo baixar tanto os preços que cortaram custos até nos cuidados com a escrita…

(Editando, alguns anos depois: este é um dos posts mais acessados do blog, então retirei umas interjeições, pontos de interrogação e exclamação exagerados e outras informações sobre alterações que fiz anteriormente. Assim o texto fica mais direto e simples)